{"id":420,"date":"2018-03-28T12:05:38","date_gmt":"2018-03-28T15:05:38","guid":{"rendered":"http:\/\/espora13.com.br\/?p=420"},"modified":"2019-01-04T12:30:07","modified_gmt":"2019-01-04T14:30:07","slug":"atleticano-nao-se-faz-nasce-atleticano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espora13.com.br\/index.php\/2018\/03\/28\/atleticano-nao-se-faz-nasce-atleticano\/","title":{"rendered":"Atleticano n\u00e3o se faz\u2026 Nasce Atleticano"},"content":{"rendered":"<p>Salve Massa!<\/p>\n<p>19 de dezembro de 1971 &#8211; Maracan\u00e3, Rio de Janeiro. Botafogo x Clube Atl\u00e9tico Mineiro. L\u00e1 no radinho de pilha, ouvia-se a voz de Vilibaldo Alves:<!--more--> \u201c18 minutos do segundo tempo, recolhe a bola Ti\u00e3o. Ainda Ti\u00e3o pela ponta esquerda. Devolve a bola para Humberto Ramos. Passou pela marca\u00e7\u00e3o, ainda com Humberto Ramos. Ele vai pela linha de fundo. Sensacional Humberto Ramos, cruzou para a meta, \u00e9 para Dario, cabe\u00e7a na bola \u00e9 gol!!! Gooooooooool\u201d.<\/p>\n<p>E o grito de gol ecoava nos corredores de uma maternidade, atrav\u00e9s de o choro de um garoto que nascia naquele exato momento, h\u00e1 mais de 450 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do Maracan\u00e3. A torcida do Galo fazia festa e se preparava para receber o heroico time. Enquanto isso, o pai da crian\u00e7a que nascera ali, naquela maternidade, tinha grandes sonhos e planos para o filho.<\/p>\n<p>Dois dias ap\u00f3s o retorno da equipe do Clube Atl\u00e9tico Mineiro \u00e0 capital mineira, pai, m\u00e3e e filho, voltam da maternidade para casa. O Primeiro presente? Um short azul com listras brancas, que o pai mandou fazer (naquela \u00e9poca n\u00e3o havia material de times de futebol para beb\u00eas, como hoje em dia) para mostrar a todos, que ali, naquela casa, nascia mais uma crian\u00e7a \u201cpalestrina\u201d.<\/p>\n<p>O rebento cresce e entre as primeiras palavras, para o desespero do pai, vez ou outra sai um \u201cGaaal\u00f4\u00f4\u00f4!!!\u201d. \u201cE agora?\u201d Pensa o pai apavorado. \u201cPreciso tomar uma provid\u00eancia. Esse menino n\u00e3o pode torcer para o Galo. O que o pessoal da empresa vai falar? E meus amigos? Minha fam\u00edlia?\u201d O pai corre para batizar o menino \u2013 devidamente vestido de azul \u2013 e joga um litro de \u00e1gua benta, faz macumba, promessa para S\u00e3o Longuinho, S\u00e3o Judas Tadeu, vai passar o r\u00e9veillon no Rio e pula sete ondas com o garoto no colo e acha que fez tudo certo. Logo no dia de reis, escuta o menino gritar \u201cGaaal\u00f4\u00f4\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o time da raposa banguela tinha um \u00eddolo. Um goleiro que inovou ao usar uma camisa amarela (e por isso recebeu o carinhoso apelido de Wanderleia). E esse \u00eddolo era muito amigo do pai do garoto. Compram camisa infantil amarela, n\u00ba 1, cinco estrelas no peito e o pr\u00f3prio Wanderleia, entrega a camisa para o garoto que, naquele momento, sem entender nada, aceita vestir a camisa amarela, para a felicidade geral do pai e de Wanderleia.<\/p>\n<p>Feliz, orgulhoso e dono de si por finalmente catequizar o rebento na arte da pederastia celeste, naquele mesmo final de semana, na tarde de domingo, enquanto saboreia uma Malte 90 e fuma um Continental, acompanha o filho e amigos, jogando futebol. Ao se aproximar do \u201ccampo&#8221; para ver melhor a &#8220;pelada&#8221;, v\u00ea o filho disparar pela esquerda, driblar o primeiro, d\u00e1 uma caneta no segundo, troca passes com o filho do dono da mercearia, len\u00e7ol no filho do alfaiate e bate para o fundo do gol! E o garoto corre, comemorando com os bra\u00e7os esticados para os c\u00e9us e gritando \u201cGaaal\u00f4\u00f4\u00f4!&#8221;.<\/p>\n<p>Como um general que acaba de perder a guerra, o pai \u00e9 tomado por uma mistura de raiva e tristeza. Afasta-se dali e promete para si mesmo que n\u00e3o far\u00e1 mais nada! Se com todas as tentativas, nem com a for\u00e7a de todas entidades sobrenaturais o garoto n\u00e3o mudou; se mesmo depois de pedir para Cuca, Curupira, Saci Perer\u00ea, Iara, Mula-Sem-Cabe\u00e7a, Boitat\u00e1 e seus asseclas, o garoto ainda \u00e9 atleticano; se nem mesmo o goleiro superstar Wanderleia, com todo o seu poder amarelo purpurinado, conseguiu converter o menino em um seguidor de maria, quem seria ele, um simples pai, para converter o rebento?<\/p>\n<p>A partir dessa derrota, coube ao pai apenas provar que o filho fez uma p\u00e9ssima escolha. E nas derrotas que o time do Galo sofre, o pai aproveita para potencializar o sofrimento do garoto, com chacotas e gargalhadas. O tempo passa e por fim, o pai se d\u00e1 por vencido diante do irredut\u00edvel amor do filho pelo Clube Atl\u00e9tico Mineiro. Para. Deixa pra l\u00e1\u2026 N\u00e3o tem jeito.<\/p>\n<p>O garoto j\u00e1 tinha 8 anos de idade e ao contr\u00e1rio dos colegas, jamais havia ido ao Mineir\u00e3o e sempre que o pai o convidava, o garoto prontamente dizia, \u201cSe \u00e9 para ir no jogo do seu time, n\u00e3o vou papai. Sou Galo e pronto!&#8221;.<\/p>\n<p>Era um domingo, dia 03 de setembro de 1978, mais uma manh\u00e3 de domingo, o pai diz ao filho, \u201cFilho, topa irmos ao Mercado e de l\u00e1 vamos para a casa da sua av\u00f3?\u201d. O garoto adorava ir ao Mercado Central e enquanto estavam l\u00e1, o pai pediu para o filho esperar ali na banca de produtos da ro\u00e7a e ajudar o amigo, pois ele iria resolver uma coisa e voltava logo. O garoto mal sabia o que lhe aguardava. O pai voltou e partiram para a casa da av\u00f3 materna, onde eram as reuni\u00f5es nos finais de semana e que ficava a poucas quadras do Mineir\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o \u00f4nibus chega ao destino, bandeiras do Galo por todos os lados, gente gritando, dan\u00e7ando e se preparando para entrar no est\u00e1dio. A m\u00e3e est\u00e1 no ponto aguardando filho e pai. Ao descerem do \u00f4nibus, o pai entrega as sacolas para a m\u00e3e, mas antes tira um embrulho. Ao abri-lo, o garoto tem um brilho nos olhos enquanto passava as m\u00e3os pelas bochechas, sem acreditar que o pai, cruzeirense, havia comprado uma camisa do Galo para ele. Pai e filho se abra\u00e7am e o pai diz: \u201cagora vamos no jogo, mas voc\u00ea n\u00e3o pode contar para ningu\u00e9m que eu n\u00e3o sou Atleticano, combinado?\u201d. O garoto balan\u00e7a a cabe\u00e7a, consentindo, de uma forma t\u00e3o fren\u00e9tica que parecia estar ouvindo Iron Maiden.<\/p>\n<p>Ganham o est\u00e1dio, passam pelos bares, sobem as escadas e tamb\u00e9m ganham a arquibancada, a torcida j\u00e1 gritando Galo sem parar, a charanga do Galo \u00e9 puro samba e empurra a torcida o tempo todo. A cada gol de Marcinho, Paulo Izidoro e Ziza, da vit\u00f3ria do Galo por 4 a 0 contra o Val\u00e9rio, pai e filho se abra\u00e7am e sorriem. Voltam para casa da av\u00f3 fazendo festa por todo o caminho. Sonho de pai e filho, estarem juntos no Gigante da Pampulha, havia sido realizado.<\/p>\n<p>24 de julho de 2013 &#8211; Mineir\u00e3o, Belo Horizonte. O Clube Atl\u00e9tico Mineiro se sagra Campe\u00e3o da Libertadores. Aquele mesmo menino, agora homem, est\u00e1 l\u00e1, testemunhando ao vivo mais essa conquista. Chora aos solu\u00e7os, n\u00e3o aquele choro da reden\u00e7\u00e3o que 99% das pessoas ali sentiam. Era choro de agradecimento ao pai, por ter respeitado e valorizado a sua Atleticaniedade, era choro de saudades tamb\u00e9m, por n\u00e3o ter mais os bra\u00e7os do pai, como naquela tarde de 03 de setembro de 1978, quando pela primeira vez em sua vida, ao lado do pai, exerceu seu direito e amor ao Glorioso Clube Atl\u00e9tico Mineiro.<\/p>\n<p>Esporada neles, Galo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salve Massa! 19 de dezembro de 1971 &#8211; Maracan\u00e3, Rio de Janeiro. Botafogo x Clube Atl\u00e9tico Mineiro. 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